O Caminho da Fibra: Entenda FTTH, FTTN e como a internet chega na sua casa
A expansão das redes ópticas revoluciona diariamente a forma como os provedores entregam conectividade. Embora muitas vezes generalizemos tudo como “Internet Fibra”, existem diferenças cruciais na arquitetura física que impactam o custo, a manutenção e a velocidade final.
Dentro da infraestrutura de telecomunicações, surgem os modelos FTTx (Fiber To The x), que definem exatamente onde a fibra termina e onde começa o cabeamento metálico (ou se ele sequer existe).
Este artigo detalha tecnicamente as topologias FTTH, FTTB, FTTC e FTTN, explica a diferença entre WAN e Rede de Acesso, e descreve o caminho do sinal da OLT até a validação de potência na casa do cliente.
1. Contexto: WAN, Backbone e Rede de Acesso
Para entender onde o FTTx se encaixa, precisamos separar a rede em camadas. Embora coloquialmente falemos em “Rede WAN”, tecnicamente a estrutura se divide em:
- Backbone (WAN): A “estrada principal” que interliga cidades, estados e países com altíssima capacidade.
- Rede de Agregação/Metro: Distribui o sinal dentro da cidade.
- Rede de Acesso (Last Mile): É aqui que entram as topologias FTTx. É a “última milha” responsável por conectar a residência ou empresa à rede do provedor.
2. Topologias FTTx: O que significa cada uma?
FTTx é o termo genérico para “Fiber To The x”, onde “x” representa o ponto de parada da fibra óptica antes de encontrar o cliente.
2.1 FTTH – Fiber To The Home (Fibra até a Casa)
É o padrão ouro do mercado e a topologia mais utilizada por ISPs modernos no Brasil.
- Como funciona: A fibra óptica sai da OLT, passa pela rede de distribuição óptica (ODN) totalmente passiva e entra dentro da residência do cliente, conectando-se diretamente à ONT (modem óptico).
- Vantagens: Imune a interferências eletromagnéticas, menor latência e capacidade de banda virtualmente ilimitada (suporta 1Gbps, 10Gbps via XGS-PON, etc).
- Cenário: Redes novas e provedores regionais competitivos.
2.2 FTTB – Fiber To The Building (Fibra até o Prédio)
Comum em condomínios verticais mais antigos ou em projetos de redução de custo de drop.
- Como funciona: A fibra chega até o DG (armário de telecom) no térreo ou subsolo do prédio. Do armário até os apartamentos, utiliza-se a infraestrutura existente, geralmente cabo de rede UTP (Ethernet).
- Vantagens: Aproveita tubulações internas congestionadas onde não passaria fibra nova.
- Ponto de atenção: Limitado a 100 metros de cabo UTP dentro do prédio.
2.3 FTTN – Fiber To The Node (Fibra até o Nó) e o Cenário HFC
Aqui a fibra para longe do cliente, alimentando um “nó” que atende um bairro ou quarteirões inteiros.
- Como funciona: A fibra alimenta um nó óptico na rua. A “última milha” é feita via cobre.
- O fator HFC: No Brasil, o FTTN é a base das grandes operadoras de TV a cabo. A fibra vai até o node e o sinal chega à casa do cliente via Cabo Coaxial (tecnologia DOCSIS).
- Desvantagem: O cobre sofre com oxidação, ruído elétrico e atenuação pela distância, exigindo amplificadores na rua.
2.4 FTTC – Fiber To The Curb (Fibra até o Poste/Calçada)
Similar ao FTTN, mas a fibra chega mais perto, geralmente até um armário na calçada ou poste próximo (menos de 300m). A entrega final pode ser via par metálico (VDSL). É uma tecnologia em desuso frente ao barateamento do FTTH.
3. Comparativo Rápido
| Topologia | Onde a fibra para? | Última Milha (Mídia) | Imunidade a Ruído |
| FTTH | Dentro da casa | Fibra Óptica | ★★★★★ (Total) |
| FTTB | DG do Prédio | Cabo UTP / Ethernet | ★★★★☆ |
| FTTN/HFC | Nó no bairro | Cabo Coaxial / Cobre | ★★☆☆☆ |
| FTTC | Armário na rua | Par Metálico (VDSL) | ★★★☆☆ |
4. O Caminho Técnico: Da OLT à Casa do Cliente (Cenário FTTH)
Para técnicos e instaladores, o fluxo físico da rede GPON/EPON segue estas etapas críticas:
4.1 OLT (Optical Line Terminal)
O “cérebro” localizado no Data Center/POP. Ela gerencia o tráfego, controla as ONUs e envia o sinal de luz (laser).
4.2 Rede de Distribuição (ODN)
Entre a central e a casa, a rede é Passiva (não usa energia elétrica).
- Cabos: Troncal e Distribuição.
- Splitters: Elementos passivos que dividem a luz (ex: 1:8, 1:16).
- Caixas de Emenda e CTOs: Onde a fibra é sangrada e derivada.
4.3 Drop Óptico (A Última Milha)
Da CTO (caixa no poste) até a casa, usamos o cabo Drop Compacto.
- Tecnologia da Fibra: Utiliza-se fibra padrão G.657 (BLI – Low Friction). Diferente da fibra de backbone, esta fibra suporta curvas mais fechadas (raio de curvatura menor) sem atenuar o sinal ou quebrar, facilitando a passagem por conduítes domésticos.
4.4 Instalação no Cliente (Inside Plant)
Este é o momento crítico da ativação.
- Conectorização: Em redes PON, o padrão é o conector SC/APC (Verde). O polimento angular (8 graus) evita que a luz reflita de volta para a OLT (Reflectância), o que poderia “cegar” a porta PON ou causar erros de transmissão. Nunca use conectores Azuis (UPC) em redes desenhadas para APC.
- Power Budget (Orçamento de Potência): Antes de conectar a ONU, o técnico deve medir o sinal com o Power Meter.
- Faixa ideal típica: -15 dBm a -25 dBm.
- Sinal alto demais (ex: -8 dBm): Pode queimar o receptor da ONU.
- Sinal baixo demais (ex: -30 dBm): Gera lentidão, perda de pacotes e queda da conexão (LOS).
5. Considerações
Enquanto FTTN e FTTB tiveram seu papel histórico na transição das telecomunicações, o FTTH consolidou-se como a arquitetura definitiva para o presente e futuro próximo.
Para o profissional da área, entender não apenas a sigla, mas os componentes físicos — como a diferença entre uma fibra G.652 e G.657, ou a importância do polimento APC — é o diferencial para ser o técnico de telecomunicações qualificado.

