Certificadores de Rede (Fluke DSX): como funcionam por dentro
Os certificadores de rede, especialmente os modelos Fluke DSX-5000, DSX-8000 e DSX-602, são hoje o padrão mundial para validação de cabos metálicos (UTP, FTP, STP) e fibras ópticas. Mas, apesar de serem ferramentas amplamente utilizadas, poucos técnicos realmente entendem como esses equipamentos funcionam por dentro, quais tecnologias eles usam e por que os relatórios gerados por eles são aceitos internacionalmente.
Este artigo é fundamental: você vai entender a engenharia interna, os módulos, os testes físicos e matemáticos executados e por que eles são indispensáveis em instalações corporativas, datacenters e projetos certificados.
1. O que um certificador realmente faz
O certificador não apenas mede continuidade ou identifica pares. Ele executa uma série de análises complexas para garantir que o cabo instalado atinge a performance definida nas normas ANSI/TIA-568, ISO/IEC 11801 e EN 50173.
Ele válida:
- Estrutura do cabo (pares corretos, comprimento, rompimentos)
- Atenuação
- NEXT / FEXT
- ACR-N / ACR-F
- PS-NEXT / PS-FEXT
- RL (Return Loss)
- Delay
- Skew
- Resistência DC e desbalanceamento
- Performance total do canal ou do link permanente
Para isso, ele utiliza uma combinação de eletrônica de alta precisão, processadores dedicados e algoritmos de compensação e filtragem.
2. Como o Fluke DSX funciona internamente
Por dentro, o DSX é dividido em quatro blocos principais:
2.1 Módulo de Injeção de Sinal (Geração de Alta Frequência)
O DSX injeta sinais de teste em cada par, variando a frequência de forma controlada (sweep) até 2 GHz nos modelos mais recentes.
Esse módulo contém:
- Osciladores de precisão
- Amplificadores balanceados
- Circuitos para equalizar a energia entre os pares
- Sistemas de calibração interna automática
Isso permite que o equipamento avalie o comportamento do cabo nas faixas de frequência usadas por redes como:
- Cat 5e: até 100 MHz
- Cat 6: até 250 MHz
- Cat 6A: até 500 MHz
- Cat 8: até 2000 MHz
Quanto maior a categoria, mais sensível o teste e, consequentemente, mais sofisticada deve ser a eletrônica.
2.2 Módulo de Medição e Análise
Aqui está o “cérebro” do certificador.
Ele mede:
- Quanta energia retorna (Return Loss)
- Quanto vaza entre pares (NEXT e FEXT)
- Quanta potência chega na outra ponta (Attenuation)
- Diferença de tempo entre pares (Skew)
O módulo possui:
- ADCs de alta resolução (Conversores Analógico–Digital)
- Processadores DSP (Digital Signal Processor)
- Filtros digitais de ruído
- Banco de dados interno com limites normativos
Cada medição é comparada com as tabelas de limites exigidos pela norma para aquela categoria e para aquele tipo de link.
2.3 Mecanismo de Bifurcação (Main + Remote)
O Fluke DSX sempre trabalha em dupla:
- Main Unit — injeta e mede sinais.
- Remote Unit — responde, ecoa ou devolve informações.
O remote é mais simples, mas contém:
- Circuitos de reflexão controlada
- Resistores de precisão
- Filtros calibrados
Sem isso, seria impossível medir NEXT e FEXT adequadamente.
2.4 Módulo de Compensação e Auto-Calibração
Para garantir precisão em qualquer ambiente, o DSX possui:
- Autoajuste de temperatura interna
- Recalibração automática de offset
- Correção de perda interna dos adaptadores
- Tabelas de referência específicas para cada tipo de plug e adaptador
É por isso que o Fluke exige adaptadores originais e dentro da validade, já que os dados de calibração deles são registrados individualmente.
3. Como cada teste é realmente executado
Aqui está uma explicação prática, porém técnica, dos principais parâmetros.
3.1 NEXT (Near-End Crosstalk)
O DSX injeta um sinal em um par e mede quanto dele vaza para outro par.
Ele usa métodos como:
- Teste multi-frequência (sweeping)
- Algoritmos de detecção de interferência cruzada
- Conversão para dB
O NEXT é o parâmetro mais crítico para categorias altas (6A e 8).
3.2 FEXT / ACR-F
Aqui ele mede o vazamento na outra ponta do cabo usando o remote.
O DSX calcula:
ACR-F = FEXT – Attenuation
Isso determina se o sinal ainda será inteligível na recepção.
3.3 Return Loss (RL)
A unidade principal mede a parcela do sinal que retorna devido a imperfeições do cabo.
Problemas comuns detectados:
- crimps ruins
- diferença de impedância
- curvas muito fechadas
- conectores fora de padrão
É um dos testes mais sensíveis e responsáveis por muitas reprovações em Cat 6A.
3.4 Delay e Skew
O DSX mede:
- Tempo total de propagação por par
- Diferença entre eles
Se o Skew for alto, aplicações como 10GBASE-T podem falhar.
3.5 Resistência DC e desbalanceamento
Novidade importante nas normas recentes:
- resistência por par
- desbalanceamento entre condutores
- desbalanceamento entre pares
Esses parâmetros reduzem ruídos e interferências, o que é especialmente importante para PoE.
4. Normas que o DSX segue
Os testes e limites seguem as normas:
- ANSI/TIA-568.2-D
- ISO/IEC 11801-1
- EN 50173
- IEEE 802.3 (especificações de Ethernet)
- ANSI/TIA-1152-A (procedimentos de medição)
Por isso, seus relatórios são aceitos mundialmente.
5. Por que o DSX é mais caro que um testador comum
Motivos:
✔ circuitos de alta precisão
✔ DSP dedicado
✔ banco de dados normativo
✔ calibração rastreável
✔ adaptadores calibrados individualmente
✔ tolerância mínima a erros
✔ confiabilidade para auditorias e certificações profissionais
Um teste que parece “simples” pode envolver dezenas de milhares de pontos de coleta processados em milissegundos.
6. O relatório: o verdadeiro valor do certificador
O relatório do DSX é:
- padronizado
- aceito por auditorias
- obrigatório em grandes obras
- rastreável com número de série do equipamento
- armazenável na nuvem (LinkWare Live)
Ele prova a qualidade da instalação e protege o técnico contra futuras cobranças.
Considerações
Os certificadores Fluke DSX são mais do que ferramentas; eles são computadores de alta precisão projetados para validar cabos dentro de normas rigorosas. Entender como funcionam internamente ajuda o técnico a interpretar melhor os resultados e a identificar problemas com agilidade. Se você trabalha com redes estruturadas, datacenters, cabeamento corporativo ou projetos de alto padrão, dominar o DSX é um diferencial profissional enorme.

